quarta-feira, 15 de março de 2017

Como eu aprendi o "pagode russo"

"Ontem sonhei que estava em Moscou, dançando pagode russo na boate Cossaco", diz uma canção popular brasileira. De fato, a Rússia e o Brasil têm muitas coisas em comum por serem países cuja população passou a viver em grandes cidades somente na segunda metade do século XX, urbanização essa que trouxe benefícios, mas também muitos males. A nossa nova história no blog Russificando não aconteceu em Moscou, mas em São Petersburgo, capital cultural do país.

A cultura tradicional russa e a brasileira possuem muitos elementos em comum
Muitas pessoas no mundo, mesmo na Rússia, caíram no conto da globalização, da "cultura pós-moderna", passando a adotar hábitos estranhos, esquecendo-se completamente e até se envergonhando da própria cultura. Ainda no século XIX o grande escritor russo Nikolay Gógol escrevia em "Taras Bulba" (obra favorita do autor deste texto): "eu sei que a vilania também veio para a nossa terra, pensam apenas em engordar os próprios cavalos com feno, adotam costumes bárbaros que só o diabo conhece, sufocam o próprio idioma, não querem conversar com os seus, vendem uns aos outros como produtos no mercado". Com essas palavras, ainda no século XIX, o mestre literário russo, também historiador, descreveu um processo agressivo e globalizar ao qual estão sujeitas as grandes cidades, um processo que Iósif Stalin chamou de "cosmopolitanismo" e que a linguagem dos nossos dias viria a chamar de globalização, um trator que esmaga a cultura dos povos por onde passa, mas que na Rússia encontra oposição, oposição essa que existe numa fortaleza que sobrevive ao tempo, a tradição.

Desde que vim à Rússia pela primeira vez tive como objetivo aprender tudo que pudesse, para voltar e contar como as coisas realmente são na Rússia, para destruir estereótipos sobre um país milenar que é diariamente caluniado e difamado no Ocidente. Da infância à idade adulta, a cota de russofobia foi extrapolada, ouvi todo tipo de barbaridades que se pode imaginar sobre a Rússia, mas com o estudo e o contato com os russos fui percebendo que não eram os bichos-papões dos quais nos falavam. Mesmo a imagem robótica do russo apresentada por alguns filmes de Hollywood ruiu quando conheci a música russa e a sua dança através de um LP de Ivan Rebroff, do Coro do Exército Vermelho e de diversos vídeos na internet, eles expressam uma Rússia diferente, alegre, que canta e dança até na terceira idade com movimentos que exigem força e flexibilidade. Em muitos aspectos lembra a dança russa lembra o samba com seus movimentos de pés, o "pagode russo" do qual nos falou Luís Gonzaga, mas ela é mais diversificada e pode incluir mesmo instrumentos de batalha como uma espada ou alguns tacos de um hooligan. Ao vir à Rússia decidi que deveria aprender a dança russa, o que infelizmente não funcionou na primeira vez.


Quando voltei à Rússia em 2015, em 2016 conheci Liza, integrante de um grupo folclórico, quando vi sua foto na rede social russa, o VK, com o vestido típico russo, percebi de que não se tratava de qualquer garota russa. Infelizmente, na Rússia, assim como no Brasil, há pessoas que sentem vergonha de costumes típicos, acham que é coisa de gente atrasada, "retrógrada", mas na Rússia, assim como no Brasil, há paladinos que resistem com estoicismo a essa mentalidade pobre e inculta. No Brasil, certa vez um professor de história carioca me disse que no Rio ou São Paulo uma criança jamais iria ao metrô com um traje nordestino ou de gaúcho, mas iria com o do Batman ou do Homem-Aranha, personagens impostos pela cultura de massas dos Estados Unidos, de modo que o Sul e o Nordeste são os únicos lugares onde a cultura tradicional do povo brasileiro, a julgar pelo que vi viajando o Brasil de Norte a Sul. Na Rússia e em muitos países europeus a cultura tradicional conheceu uma grande valorização nos últimos anos. Mesmo nos tempos da União Soviética surgiram filmes sobre o passado dos povos da Rússia, foram filmados clássicos do cinema como Alexander Nevsky, Sadko, Morozko, Hmelnitskiy e outros, e mesmo a propaganda soviética sempre trazia a cultura dos povos da União Soviética, cada um usando o seu traje típico, todavia sempre me chamou a atenção o fato de que o ucraniano aparecia com a bata nacional, o uzbeque, o georgiano, mas o russo de terno e gravata... Isso não quer dizer, claro, que não fosse valorizada a cultura nacional do russo, ela era sempre lembrada em muitos eventos como as festas do Primeiro de Maio e mesmo em clubes das forças armadas.



Quando Liza me apresentou um evento no VK sobre um "Seminário de Dança Masculina" a primeira coisa que chamou a minha atenção foi o nome "plyaska", em vez de "tantsy" (palavra não é originária da língua russa), também me chamou a atenção quando ao conversar com outros jovens russos quase nenhum conhecia o verbo "plyasat" (ou seja, dançar), são jovens da cidade, mimos... dá pra entender! Nos meus tempos do Exército Brasileiro, quando o nosso instrutor, um tenente, nos ensinava a se orientar no campo pela casa do joão-de-barro ele chamava os jovens "demasiado citadinos" de "filhinhos de papai". Ao ler sobre o evento, eu me deparei com alguns vídeos que apresentavam Denis Antipov, um verdadeiro mujique russo com quem identifiquei. Em um documentário chamado "A alma da dança", Denis, que tem o mesmo nome do meu professor de kung fu no Brasil, falava com entusiasmo dos elementos da dança russa, uma frase sua em seu perfil, chamou a minha atenção, "não quero amigos, mas camaradas".

O seminário teve início na sexta-feira em Pushkino. Quando saí da van fui direto para uma cooperativa muito interessante, fundada por praticantes da arte marcial russa conhecida como "buzu", na mesma cooperativa também trabalhavam artesãos que teciam roupas roupas, brinquedos e outros artefatos tradicionais russos. Começamos com um café-da-manhã, com o Chá Ivan, biscoitos, pão, patê e mel misturado com frutas típicas russas, uma delícia, tudo nos conformes do Grande Jejum que antecede a Páscoa ortodoxa, nada de leite ou ovos.

Uma de nossas refeições
No início de nosso seminário me deparei com participantes de todas as idades, todos, exceto eu, nascidos na Rússia, e quase todos de barba. Antes de iniciar os exercícios, fizemos a "Oração do Espírito Santo", cantada, na qual pedimos a purificação de toda a profanação e a purificação da alma, pois todos éramos cristãos ortodoxos, embora fosse permitida a participação de pessoas de qualquer credo. Fizemos então vários exercícios para enrijecer e relaxar o corpo, além de muitos exercícios para as pernas. Todos os exercícios eram acompanhados com o som da sanfona russa (garmoshka), a mesma usada na música de Luís Gonzaga, muito parecida com a música tradicional do Brasil (sim, tradicional do Brasil e não do Nordeste, pois brasileiros possuem uma mania doentia de falar do Brasil como se fosse uma colcha de retalhos de regiões, e não um país só). Aprendíamos passos básicos e movimentos e éramos estimulados a aprender a dança não apenas para o salão onde estávamos, mas para todos os momentos da vida. Em nosso almoço, tivermos uma sopa de repolho conhecida como borsch, além de outros aperitivos, tudo dentro dos cânones do Grande Jejum, antes do almoço fizemos uma oração. Durante o almoço discutíamos a história de cada um de nós, cada um falava de suas famílias, da história de seus antepassados, considerada importante por cada um. Quando perguntado sobre minha família e origem social, falei do meu pai, um jovem de origem bastante humilde, filho de um pescador que de tão pobre teve que entregar os filhos para outros parentes criarem, sendo então criado por um ferroviário aposentado, trabalhou desde criança na mercearia do meu avô, e muito cedo se firmou na vida pelo estudo, tornando-se funcionário público e pai de família já aos 23 anos, um feito invejável, num mundo onde cada vez mais tarde jovens se tornam pais. Perguntado sobre as desigualdades sociais no Brasil, comentei sobre a minha infância, quando aos 3 anos morei em um enorme casarão (tido como assombrado) na pequena cidade de Angicos, e sobre como brincava com crianças que viviam em casas de taipa que moravam nos arredores. Para mim, enquanto criança, eles não eram piores por que moravam em casas de barro e dormiam em camas feitas com pedaços de madeira, para mim eram apenas os amigos com quem eu brincava.

De volta ao treino, assistimos alguns vídeos de como vovôs russos dançavam, de forma jovial, outros de forma mais agressiva, porém amável diante das damas, faziam versos, rimas, dançavam em rodas, como em desafios. Esse tipo de cultura popular lembra muito algumas tribos urbanas que se reúnem em parques e fazem exatamente isso, desafios de dança.

A dança russa chama a atenção de pessoas de todas as nações por exigir pernas fortes e flexíveis
Durante a noite, tivemos a janta e durante ela se juntaram a nós os participantes dos dias seguintes do seminário. Durante a nossa conversa masculina noturna conversávamos sobre diversos assuntos, família, dança, cultura e mesmo política. Me surpreendeu quando vi Denis falar sobre Stalin, sobre como ele ergueu a Rússia e de suas ideias sobre a "Amizade dos povos", eu comentei sobre as cooperativas, que existiam em grande número na época de Stalin e que Khruschov depois as fechou, até falei de avanços científicos desenvolvidos por cooperativas soviéticas. Me impressionou também a companhia de Vladimir, que já chegou sapateando, notável conhecedor das tradições russas, dos adornos da camisa típica, me ensinando a diferenciar as verdadeiras das "feitas para turistas", ele conferiu a minha e comentou que era feita conforme os cânones da camisa tradicional russa. Também falávamos sobre os neopagãos e sobre como muitos neonazistas se disfarçam de tradicionalistas. Outro colega me impressionou, revelando que tinha educação superior em música, tocava muito bem a sanfona, e com ele cantamos diversas canções populares, algumas desconhecidas por mim, outras velhas conhecidas, como "Lyubo bratsy lyubo", e ele me surpreendeu ao conseguir tocar na sanfona a canção "Viju chudnoye privolye", que passei a cantar.
Um fato desconhecido no Ocidente é o de que Stalin defendeu a ideia da "Amizade dos Povos", nos tempos da URSS
O que irá impressionar o leitor é que todo esse clima de alegria verdadeira se dava sem a presença de uma só gota de álcool. Se no Brasil, quase sempre, conversas entre homens são quase sempre restritas a futebol, era grande a diversidade de assuntos sobre os quais conversavam os mujiques. Além de entusiastas, muitos tinham diploma em artes, história e outras áreas.

No dia seguinte, mais treino, treinávamos agora danças em grupo e já nos dividíamos em vatagi, cada uma com o seu ataman, o líder. Ao final da tarde seguimos para uma baniya, isto é, a sauna russa. Quando voltamos, o ambiente estava mais colorido, agora havia um grupo folclórico e muitas garotas em vestidos tradicionais, eu mesmo vesti a minha rubaha e como Denis afirmou, eu era praticamente outro dentro dela. A minha vataga então fez uma bela encenação "furando" a festa dançando e simulando uma briga, encerrada com muitos abraços e danças. Aprendemos então três diferentes danças em pares e participamos de uma brincadeira muito interessante, na qual uma das garotas jogava o lenço e aquele que o pegasse poderia beijar a garota que jogou. Em meio a muito empurra-empurra, um jovem de Moscou conseguiu pegar o lenço quatro vezes, até os mujiques combinarem de fazer uma corrente para impedi-lo de pegar uma quinta! No último momento, a banda, que tocou até temas irlandeses, tocou a música tradicional georgiana, a lezginka, e assim cada mujique escolhido dançava com a garota que o escolheu, e este deveria apanhar o lenço sem usar as mãos, inclusive para se apoiar! O momento foi único, música georgiana e um brasileiro de alma russa em traje típico russo.

 Ao som da lezginka georgiana dançávamos e deveríamos apanhar o lenço do chão sem usar as mãos

Foi festa muito alegre, sem vulgaridades que o mundo pós-moderno apresenta como sendo sinônimo de alegria, era um seminário, uma festa, na qual lembrávamos no dia seguinte o nome de nossos camaradas e das garotas que estiveram conosco! Fui muito bem recebido por esses camaradas que demonstraram o espírito russo aberto, comunicativo, alegre e cheio de energia, a verdadeira alma da Rússia. É necessário respeitar a cultura tradicional de cada povo, representá-la, mostrar o que ela significa, pois modas são coisas passageiras, que vão e vem, mas a tradição, como já dizia o filósofo G. K. Chesterton, é o que nos preserva do caráter corruptor do tempo!






Vídeos:



Esgrima moderna no Parque de Shuvalovo

Se você quer treinar esgrima em São Petersburgo, essa é a sua chance. Quem acha que já viu de tudo no Parque de Shuvalovo, sempre há com o que se surpreender:


Contato: http://siluett.spb.ru/

domingo, 12 de março de 2017

Versos sobre um camarada brasileiro

Um fato desconhecido no Ocidente é que na Rússia existe uma ideologia defendida por Stalin chamada "Amizade dos Povos" (Дружба Народов), que propõe a ideia de que todos os povos são irmãos. Essa ideologia sobrevive ao tempo e nada é capaz de dissolvê-la!
Tive a grande honra de ser agraciado pelos meus camaradas russos com versos que dizem:
"Do Brasil veio o glorioso moço Cristiano,
Impressiona com a dança russa, ortodoxo cristão"


Como transformar o inverno russo em verão brasileiro


Não importa 0 graus ou menos quarenta,
com essa maravilha tudo a gente aguenta

Na foto, a bekesha, considerado o melhor casaco para o inverno russo. Pode-se usá-la com uma camiseta por baixo. Se devidamente vestida, aquece bem mesmo sob -40. Pode-se dormir na neve sem temer resfriado com uma dessas. Nada, mas nada esfria a bekesha com a sua camada de couro e de lã de ovelha!
Foi testada hoje pelo nosso blog, sob -2 graus. A sensação foi a de caminhar por uma praia de Fortaleza.

Alvorada em São Petersburgo