domingo, 2 de outubro de 2016

A bordo do Brasil em São Petersburgo

Ontem, em São Petersburgo, a Marinha do Brasil foi muito bem recebida pelos russos, entusiasmados com a presença dos marinheiros brasileiros, desejando a estes uma boa viagem. Os marinheiros brasileiros também ficaram contentes com a presença dos russos. Muitos russos tiraram fotos com os marinheiros brasileiros e visitavam o navio com os seus amigos e família, havia pessoas de todas as idades.

A minha visita se deu na companhia de cinco russas, dentre as quais três alunas de engenharia naval, uma contadora da Marinha Russa e uma tenente da reserva do Exército Russo. As universitárias eu conheci ocasionalmente enquanto vinha de um festival motoqueiros e me abrigava da chuva, em frente ao prédio do Almirantado, sede da Marinha Russa.

A visita do navio brasileiro foi anunciada em jornais e num famoso grupo do VK, rede social russa, "KudaGo" (Aonde ir).


Será que também haveria uma recepção tão calorosa de um navio militar russo no Brasil? Ganharia o mesmo destaque na imprensa? O que você acha?



















quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Um dia com pessoas incríveis

Em postura de pose com os seis pintores e desenhistas que me retrataram.


Rumo ao Hermitage?


Pinturas sempre foram a inspiração de grandes romances. "O retrato de Dorian Gray" se tornou um romance famoso do britânico Oscar Wilde, sobre um homem que se tornou eternamente belo com o preço de jamais ver o seu retrato pintado, que envelhecia com o tempo, ao contrário do real personagem. O personagem de Oscar Wilde seria retratado em pelo menos vários livros e peças de teatro.


Como já foi dito em inúmeras postagens desse blog, a Rússia é um país de grandes artistas, pintores, desenhistas, escultores e outros. E a cidade de São Petersburgo, por reunir incríveis edificações e pontos históricos e turísticos em um só lugar é a inspiração para artistas de toda a Rússia desenvolverem a sua capacidade artística. Foi assim que conheci Marina, uma moça de Togliatti que veio a São Petersburgo desenvolver sua capacidade artística e resolver problemas familiares, em um grupo da rede social VK. Ela desejava conhecer um rapaz para desenhá-lo e recebeu uma enxurrada de pedidos, afinal, que rapaz não quer ter a honra de ser desenhado por uma bela jovem?

Conquanto a agenda de Marina estava superlotada, ela deu o meu contato a uma amiga sua que dirige um clube de pintura, esta me convidou para comparecer ao seu estúdio e postou duas fotos minhas afirmando que "teríamos agora um personagem belo e ilustre, um português". Eu a corrigi dizendo que era brasileiro. Para a minha surpresa, eu não apenas seria pintado, como seria pago para tal! Não vou negar que tal experimento faria com prazer até gratuitamente.

Após 1 hora de pintura
A experiência de ser desenhado não era totalmente nova, na escola pelo menos três colegas se arriscaram a tal e o resultado não foi mal. Ainda, em uma rede social de webcams, tive um avatar (retrato) desenhado, a qualidade me surpreendeu, considerando que foi feito com um mouse em pouco tempo. Mas agora seria diferente.

Ao sair do metrô Ilha de São Basílio (Vassileostrovskaya), me dirigi a um lugar incomum. Entrando no lugar, indicado por eletricistas, percebi uma multidão calada, fui perguntar algo e pediram silêncio, então percebi que se tratava de um filme que gravavam no lugar. Não era a primeira vez que eu presenciava a filmagem de uma película, algo que jamais havia visto na vida no Brasil. Me dei conta de que ficava no prédio ao lado, onde me deparei com Oksana, uma russa muito simpática do sul da Rússia que mora em São Petersburgo. 

Na sala me foi oferecida uma cadeira, eu teria que nela sentar por 3 horas para ser pintado de diferentes ângulos por... 6 pintores pintores e desenhistas diferentes, dentre os quais uma universitária siberiana, um desenhista caprichoso petersburguense, uma senhora bastante talentosa, um desenhista bastante sério, uma russa que gostava de novelas brasileiras e música italiana e uma garota digamos... bastante estudiosa.

Uma vez que me desenhavam do busto para cima, eu podia movimentar tudo abaixo, não podia fazer movimentos bruscos e constantemente o desenhista caprichoso Dima mostrava-me o seu lápis e brigava com o branco de seu papel, a fim de gravar sua impressão. Uma das garotas mais interessadas era uma pintora siberiana muito simpática, com um belo sorriso, que deixou na tela traços de sua personalidade meiga e romântica. Ela desenhava com giz. Falávamos de meu trabalho como tradutor, do trabalho de pintor, sobre novelas brasileiras, Festival de San Remo, música americana e russa e dos povos que formaram o Brasil, incluso os canibais da Amazônia e por que devoravam seres humanos.


Ao final do trabalho, segui com uma das pintoras até o metrô, falávamos de seu trabalho e sobre o desejo de se encontrar novamente, já que faria uma longa viagem. Ela me contava sobre o Hermitage, no qual trabalhou na reprodução de obras de arte famosas, sobre como esse trabalho exige pelo menos seis meses! Me falava também de seu desejo de viver em São Petersburgo.

Se no Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba, encontra-se o retrato de uma polonesa, será que um dia meus filhos e netos não terão o privilégio de ver no Hermitage ou algum outro museu um personagem exótico e diferente que apareceu para um futuro grande pintor como "O brasileiro"? Isso o tempo dirá! Mas que a sensação foi bastante relaxante, apesar das 3 horas numa só postura, disso a memória se recorda muito bem e traduz essa sensação para este blog!



Outono na Rússia

Aqueles que querem conhecer a Rússia devem ter em mente que o país encontra-se no outono no momento. Já não é mais quente como o verão, exceto em alguns raros dias com sol intenso, entretanto, só faz calor durante metade do dia no máximo, sendo as noites consideravelmente frias, a ponto dos próprios russos reclamarem. 

É recomendável usar em locais mais ao norte uma segunda pele acompanhado de camisa com manga. Se não quiser ter problemas na garganta ou ficar com o hálito ruim, usar uma "roupa de cima" (casaco, sobretudo, capa, manto...) é essencial. 

Uma das grandes belezas deste período é o "outono dourado", quando começam a cair as folhas das árvores em tom amarelado.

domingo, 4 de setembro de 2016

Cerimônia da separação das pontes

Acompanhada de música clássica e de uma grande multidão se dá a separação das pontes sobre o épico rio Nevá:


O festival afrorrusso de São Petersburgo

Essa semana, conforme já foi dito em outro artigo, um jovem afrobrasileiro de Minas Gerais pedia informações sobre os negros na Rússia, informação que chega ao ocidente completamente distorcida ou na melhor das hipóteses desatualizada! Esse blog dará a você informações QUE NENHUM OUTRO BLOG SOBRE A RÚSSIA É CAPAZ DE OFERECER!

Tzar Pedro, o Grande, e Ibrahim, quadro do pintor L. E. Feyenberg do Museu Estatal de Literatura de Moscou
Como já dito em outro blog, a ameaça neonazista russa foi neutralizada com o crescimento econômico, o fortalecimento da legislação russa e, ironicamente, com o triunfo do nazismo na Ucrânia, que levou o mais marginal dos cidadãos russos a rever suas ideias. Desse modo, ao contrário do que ocorre na Ucrânia, na Rússia o neonazismo passou a ser uma ideologia de marginais, sem respaldo em qualquer círculo social minimamente educado na Rússia. 

Com o processo de re-sovietização da Rússia em algumas esferas da vida cotidiana, muitos ideais soviéticos voltaram à tona, do hino soviético à forma como o russo lida com outros povos. Os manuais soviéticos, dentre os quais o "Breve curso de língua russa", da professora Nina Potapova, nos traz vários exemplos da amizade do povo soviético com diversos outros povos do mundo. O manual do Ministério da Defesa da União Soviética "Uchebnik russkovo yazyka", premiado com a Ordem da Bandeira Vermelha, manuais pelos quais o autor desse artigo aprendeu russo, trazem inúmeros textos sobre a interação do povo soviético com povos da África e da América. Se puxarmos exclusivamente a história russa, encontraremos ainda outros exemplos de relações dos russos com os africanos, por exemplo, no Palácio de Inverno de São Petersburgo (Hermitage), no qual havia uma "senzala" de causar inveja ao mais esnobe playboy. No Hermitage os negros tinham a sua própria sala, e diferente dos seus parentes do Brasil, no Império Russo eram considerados "servos de luxo" e tinham uma vida mais confortável do que os servos russos. Pedro, o Grande, teve um afilhado negro, Ibrahim, avô do maior escritor da história russa, Pushkin, descrito na obra "O negro de Pedro, o Grande".

Seguindo essa tradição, sem esbarrar no mal visto conceito ocidental de "tolerância" (toleranstvo), mas de encontro ao conceito russo de "transigência" (terpimost), a cidade russa de São Petersburgo demonstra a sua transculturalidade no festival conhecido como "Afrofest". Esse evento se dá na mesma cidade que comemora o festival "A lenda dos vikings da Noruega", dando ao turista ou ao morador da cidade a oportunidade de viajar do norte ao sul cultural, dos variegues aos bantus.

Os jornais ocidentais por muito tempo noticiaram casos de ataques a negros na Rússia, crimes bárbaros de extremistas racistas, mas estranhamente silenciam quando a Rússia promove um festival que visa a celebração da amizade russo-africana e da riqueza cultural da África como jamais visto em parte alguma do mundo.


A minha visita ao festival afrorrusso se deu no último dia (como no festival variegue), soube dele por acaso por meio de um amigo de Moscou (a maioria dos meus amigos russos é de Moscou e outras cidades russas). Ao chegar à estação de metrô da Ilha de Santa Cruz (Krestovskiy Ostrov), deparei-me com um estilo arquitetônico bizantino, com mosaicos e colunas bizantinas. Ao chegar ao topo, deparei-me com um casal de universitários camaroneses, sendo a garota de beleza exuberante. Ambos falavam russo, além do francês com fortíssimo sotaque. Ambos foram generosos, como aliás a maioria dos negros da Rússia. Em geral, não é comum nas grandes cidades as pessoas se saudarem, mas isso é comum entre os negros, mesmo que você seja mestiço. Em inúmeras oportunidades, no metrô, quando vejo negros eles acenam com a mão, sorriem, por vezes vem cumprimentar ou falar comigo. A maioria dos negros da Rússia são universitários que estudam e voltam aos seus países e por vezes acabam ficando e montando uma família, muitos se integram à sociedade russa.

Saída da estação de metrô de SPb Ilha de Santa Cruz

Há cerca de 20 anos atrás, nos anos da loucura liberal de Yeltsin, ser negro na Rússia era muito perigoso, aliás, não só negro, como russo ou mesmo ser idoso, muitos conhecem as histórias dos "corretores negros", mafiosos que enganavam idosos. Hoje, como me relatou um afrorrusso de São Petersburgo, ser negro pode até garantir certas vantagens num clube noturno russo. Nos clubes da rua Lomonosov, por exemplo, eles sempre estão acompanhados de lindas mulheres! Nenhum rapaz lhes causava incômodo. Em mais de uma oportunidade vi pelas ruas moças negras andando de mãos dadas com rapazes russos. Entretanto, nem tudo são flores, ainda há pessoas que relatam a dificuldade para namorar estrangeiros, o que entretanto vai além dos negros, fator ligado a estereótipos que vêm das Olimpíadas de Moscou, quando nasceram muitos afrorrussos cujos pais voltaram para a África, deixando suas mães russas para "se virarem" como mães solteiras. Um amigo de Moscou comentava como todos os afrorrussos que conheceu não sabiam quem eram seus pais. Alguns russos também acham que se tiverem filhos negros eles não irão mais parecer com os pais, preconceito este que existe em toda parte, incluindo países como o Brasil e países não-brancos como Israel (um vídeo famoso na internet mostra como um sacerdote judeu exige de outros judeus que eles casem apenas com outros judeus). Relatos como esses já ouvi de universitários africanos de São Paulo e mesmo sobre uma famosa família de Sobral, interior do Ceará, onde prezam por "pureza de sangue".

Ao chegar no festival num país onde mais de 99% de sua população não é negra, me deparei com algo que jamais vi no Brasil, um festival dedicado à cultura africana! Não estou falando de encontros de pequeno porte numa universidade ou num centro Zumbi dos Palmares, mas de um evento de grande porte num dos pontos mais famosos de São Petersburgo, a Ilha de Santa Cruz, onde está o Parque da Vitória do norte da cidade. Havia feira de roupas africanas, livros sobre a história da África, um grande palco onde uma banda russa e depois DJs africanos tocavam música africana, além de belíssimas exposições de fotos que ilustravam os trajes típicos e a beleza de representantes de Angola, Costa do Marfim, Senegal e outros países do oeste africano. Infelizmente, não percebi nada relacionado a países como a Etiópia, certamente pelo fato deste país ser isolado no continente africano. 

Garota observa o discurso de encerramento, próximo de uma exposição de fotos de africanos em trajes típicos
Junto aos africanos havia também russos que conheciam os rapazes e moças da África, dançavam zuk (dança africana bastante praticada na Rússia) e havia também um palco onde os organizadores do evento premiavam diplomatas africanos, fotógrafos russos em trajes africanos, etc. As russas são as únicas europeias que conseguem dançar como as brasileiras que vi até hoje. Num vídeo onde a cantora brasileira Bellini dança "Samba de janeiro", canção animada famosa na Europa, mas desconhecida no Brasil, um grupo de dançarinas faz movimentos robóticos. Na Rússia, como me diz um amigo professor de dança, baiano, as russas em nada ficam a dever às brasileiras na hora da dança!



Será que notícias assim saem em jornais ocidentais? Impossível imaginar isso, afinal, no ocidente russos só podem ser publicados de forma negativa, só podem ser vaiados, nunca aplaudidos, mesmo quando promovem aquilo que não é promovido num país onde 51% da sua população é negra.

A nossa matéria comprova que o mito de que "os negros são odiados na Rússia" não é nada mais do que um mito. Claro, como em qualquer parte do mundo há diferentes pessoas, mas o mais importante é perceber que o Estado russo não promove a chacina de negros como as polícias do Brasil e dos Estados Unidos, do contrário, em geral os policiais russos são bastante educados e prestativos, assim como o povo da Rússia. Os mitos negativos criados sobre a Rússia tem como fim apenas isolar o país e promover o ódio, a russofobia, e temos que lembrar que não foi o fascismo que criou o ódio, mas o ódio que criou o fascismo, e é dever daquele que testemunha o cotidiano na Rússia escrever a verdade sobre este rico país!








domingo, 14 de agosto de 2016

Sobre os neonazistas russos

"Comprei a minha passagem para a Rússia, mas sou negro, e agora?!", me pergunta numa rede social um mineiro afrobrasileiro com medo de vir à Rússia devido a histórias que aparecem na mídia ocidental. Estranhamente, essa mesma mídia ocidental nada publica sobre a chacina de negros nos Estados Unidos que, mesmo rendidos, são fuzilados pela polícia americana e espancados até a morte ou algo perto disso. Esse artigo irá mostrar a você uma Rússia que NENHUM OUTRO BLOG OU JORNAL MOSTRARIA!

Há casos de racismo, como em qualquer outro país do globo terrestre, incluindo do continente africano, onde não existe o entendimento de "negro", mas sim de "bantus", "tutsis", "zulus", "árabes", etc. Lembremos que em muitos países africanos onde predomina o paganismo bebês albinos são esquartejados e ou sacrificados, fenômeno estranho à Etiópia, que adotou o cristianismo bem antes da Europa, e que curiosamente é ignorado por certos movimentos negros ao redor do mundo. Mas voltando à Rússia, como dito aqui, a situação dos negros é bem mais complexa do que muitos podem imaginar.

Há quase 20 anos atrás, após a queda da União Soviética, a Rússia ficou totalmente sem um norte, o país sofreu um surto de americanização nos anos de Gorbatchov e de Yeltsin. Ainda sob a perestroyka, os russos eram ensinados com a doutrina de que "toda a sua história eram mentiras stalinistas" e que "havia um mundo civilizado", que definitivamente estava fora das fronteiras da Rússia. O efeito disso foi imediato, agora os russos voltavam-se contra Lenin, que era visto como "a causa de não serem civilizados", apareceram seitas totalitárias obscuras como a Ashram Shambala, liderada por um guru cuja ficha criminal inclui estupro, uso e tráfico de drogas, seita essa que venera deuses pagãos russos, hindus e xamânicos. No campo político proliferaram-se movimentos que diziam falavam no "orgulho russo" e que o "homem soviético" era uma aberração artificial. Esses movimentos professavam o paganismo e o neonazismo, ideologia cuja propaganda era proibida na União Soviética, mas que passou a ter tolerada nos anos 90, em especial dentre os jovens, que cresciam sem um referencial teórico e buscavam uma "novidade" que preenchesse o vácuo ideológico deixado pela queda da União Soviética. Alguém pode perguntar, "como um país que perdeu quase 30 milhões devido ao nazismo agora estende a mão para saudar Hitler?", a resposta: com uma mão de uma ideologia chamada "liberalismo"!

  Camisa da marca alemã "Thor Steinar" com simbologia nazista. Os símbolo neonazista da camisa acabou sendo um sucesso de publicidade e garantindo a sua popularidade dentre punks adolescentes após várias tentativas legais de acabar com a marca pela ministério público alemão, sempre fracassadas ante o argumento de que "é só um símbolo pagão associado ao lobo ao corvo e à mitologia". A marca foi obrigada a retroceder quando no ano 2000 o grupo Mediatex GmbH foi proibido na Alemanha e na República. A marca então lançou novos logos como os que podem ser vistos no centro e na direita, em vez do Z da runa do lobo, um X, e em vez de 14 88 (Sieg Heil, Heil Hitler), agora aparecia 19 99. Camisas com o antigo logo ainda podem ser adquiridas em edição limitada. Mesmo com os novos símbolos, em alguns países lojas com essas camisas por vezes tem suas vidraças quebradas. É o nazismo se adaptando.

Com o auxílio dos liberais, a Rússia conheceu o crescimento da máfia e do banditismo que oprimia os russos, e do neonazismo que oprimia os não-russos. Segundo relatos de um afrorrusso de São Petersburgo, era na capital do norte que o movimento neonazista tinha mais força. Nazistas adoram tudo relacionado à Escandinávia, loiros... e São Petersburgo é a capital mais loira da Rússia, de modo que qualquer um de cabelos negros irá se distinguir na multidão. Segundo esse mesmo relato do jovem afrorrusso Emílio nos anos 90 ele sequer podia sair de casa, que havia sempre grupos neonazistas na espreita. Nos chamados obshagi (gíria russa para obshejitye, isto é, "vivência comum", residências coletivas onde geralmente moram universitários, casas do estudante), no dia 19 de abril, aniversário de Adolf Hitler, os universitários eram recomendados a não sair de seus lares, pois corriam o risco de serem linchados por gangues neonazistas.

Conforme Yeltsin deixou o poder, após muita pressão popular e três ameaças de revoluções, uma dessas terminando em um banho de sangue em pleno centro de Moscou, na qual Yeltsin foi filmado bêbado tomando vodka enquanto tanques russos disparavam contra a Casa Branca do parlamento russo, Putin assumiu o poder e deu início a um período de desenvolvimentismo econômico, verdade, baseado em grande parte na venda de hidrocarbonetos russos. Também foram feitos vários ajustes na política do país. Putin precisava de governabilidade, e não se tem governabilidade quando se vai contra o pensamento da maioria da população. Os russos, em fins dos anos 90, dividiam-se além dos liberais, grupo minoritário, mas influente e poderoso, entre comunistas (conservadores de esquerda), ressentidos do massacre ao qual estiveram sujeitos em 1993 e da perda da força econômica e prestígio internacional da União Soviética, e monarquistas e ultranacionalistas (conservadores de direita), ressentidos da perda de territórios do Império Russo e da União Soviética. Devido ao fato de que forças de esquerda e de direita vinham trabalhando em conjunto na Rússia para derrubar o governo neoliberal de Boris Yeltsin, Putin iniciou o seu governo com medidas neoliberais, mas aos poucos adotou uma ideologia que consistia em uma aliança "vermelho-branca" em muitos aspectos, por exemplo, Putin restaurou o hino da União Soviética, embora com uma melodia nova. Agora os russos podiam novamente, em eventos internacionais, cantar o hino de seu país após um hiato de 10 anos. A bandeira vermelha do Exército Vermelho também foi restaurada, assim como vários símbolos da era soviética. Estátuas de Lenin vandalizadas foram restauradas, o épico feriado do 9 de maio também voltou a ser comemorado, e mais, como a maior nacional da Rússia, em vez do patético "Dia da Independência" (de quê ou de quem não se sabe ainda). A parada do dia 7 de novembro (25 de outubro pelo calendário juliano) não chegou a ser reintroduzida, mas em vez disso há uma parada patriótica no dia 4 de novembro, em fins do outono, quando os soldados marcham em seus uniformes quentes. E Putin foi ainda mais além, declarando que "o fim da União Soviética foi a maior tragédia do século XX". Desnecessário dizer que todos esses fatos causaram um pesadelo na cabeça dos líderes ocidentais, que pensavam que "a União Soviética estava voltando", e rapidamente filmes com vilões russos voltaram a fazer parte do imaginário holywoodiano.

Consequentemente, o nazismo, moda entre os grupos undergrounds dos anos 90 começava a ter seus dias contados. Assim, com o sovietismo voltando à moda (ao menos em parte), a Rússia promulgava leis que combatiam a propaganda nazista, e isso incluía uma lei que passou a proibir a suástica com fins de propaganda nazista. Ressalte-se, que a lei russa sublinha "com fins de propaganda nazista", pois suásticas podem ser vistas até no teto do Hermitage, sendo um símbolo eslavo muito antigo que por alguns anos chegou a ser usado pelos bolcheviques, pelo tzar Nikolay II e que precede o século XX.

A sociedade russa agora estava amparada ideologicamente por um pensamento coletivo de repúdio ao nazismo. Notícias que corriam o mundo sobre estrangeiros linchados ou assassinados por gangues neonazistas se tornavam motivo de vergonha na Rússia. Ninguém, nem mesmo os neonazistas moderados, agora queria estar associado aos grupos mais extremistas, isso levou a um verdadeiro expurgo contra tais grupos. Neonazistas eram presos pela polícia com base na nova lei, eram justiçados por outros grupos neonazistas, que entendiam que a ação de outras gangues neonazistas só prejudicavam a imagem do povo russo como uma tribo de bárbaros, por grupos comunistas e nacionais-bolcheviques e até por skatistas! Algumas gangues neonazistas se reformulavam, agora a superioridade racial era buscada não em ataques a negros, mas em programas de exercício e musculação ou alimentação saudável, seu lema deixava de ser "Glória à raça" e passava a ser "por um estilo de vida saudável", deixavam de dizer que "negros e latinos eram todos traficantes" para afirmar que "nacionalistas (como eles se denominam) não fumam e nem bebem, e que assim tornam a raça melhor", um apelo aliás, bastante convincente num país onde o tabagismo é um seríssimo problema. Em outros casos convertiam-se em seitas pagãs ou em outras hipóteses se tornavam grupos clandestinos. Havia ainda aqueles que pararam de perseguir negros, asiáticos e latinos para se dirigir a grupos da Ásia Central, afinal, diziam os militantes desses grupos, negros e vietnamitas não matavam russos, mas imigrantes ilegais tadjiques e chechenos sim. Por isso é possível ouvir falar, algumas vezes, de neonazistas que até tiram fotos amistosas com negros e por vezes com estes até fazem amizade, mas que odeiam alguns povos da Ásia Central ou do Cáucaso. Assim, pela década de 2000, o neonazismo foi se definhando na Rússia, na melhor (ou pior) das hipóteses, se adaptando e tomando novas formas mais discretas.

Mas o grande golpe no neonazismo russo veio com o exemplo de um país vizinho, em nossa década, onde ao contrário da Rússia, onde o neonazismo passou a ser uma ideologia de marginais, ele é tolerado e até incentivado da forma mais aberta e sem máscara, a Ucrânia! Durante mais de 30 anos, contando a era soviética da perestroyka e da glasnost, os neonazistas ucranianos tinham plena liberdade para contar sua nova versão da história, todas as desgraças do país eram colocadas na conta do russo e do mito ucraniano do "Holodomor", uma tragédia atribuída ao "comunismo e aos russos" na historiografia ucraniana, e não ao bloqueio do ouro (que impediu a URSS de comprar comida de outros países e obrigou-a a usar o trigo como moeda de troca para se industrializar), ou à grande seca de 1932-33, ou ainda à guerra de classes ocorrida no campo, quando funcionários públicos eram assassinados por fazendeiros contrários à coletivização.

Esses parentes dos russos, os ucranianos (ou pequenos-russos), continuavam em seu país a mesma política de Yeltsin na Rússia dos anos 90, e por isso a Ucrânia passou a ser adulada pelo ocidente, o seu idioma passava a ser o "mais belo da Europa", aos ucranianos deram o prêmio da Eurovisão (concurso musical), o ucraniano passava a ser o "bom russo". Na Ucrânia, assim como na Rússia, os neonazistas também trocavam as suas tatuagens "KILL THE NIGGERS" por "KISS THE NIGGERS", e agora passavam a se irritar com os "moscovitas malvados", como eles se referiam aos russos, o ódio ganhava um novo foco. Esse ódio viria a estourar em 2013, com o golpe de Estado conhecido como "Euromaydan", no qual partidos assumidamente neonazistas, dentre os quais o Setor Direita (Praviy Sektor), Patriotas da Ucrânia (Patryoty Ukrainy) e Liberdade (Svoboda), lideraram o golpe e passavam a glorificar nas ruas o nome de Stepan Bandera, fantoche de Hitler na Ucrânia, e de Roman Shuhyevich, responsável por incontáveis massacres como o de Volynya, um dos piores atos de selvageria cometido contra a minoria polonesa do oeste da Ucrânia.

Os discursos russófobos e propostas inclusive de proibição da língua russa, ameaças terroristas de grupos neonazistas ucranianos contra cidadãos russos no metrô, receberam enorme repercussão na mídia russa, que passava a expressar abertamente um discurso antifascista na Rússia. Grupos armados constituindo verdadeiros exércitos com símbolos e conduta análogos aos da SA, SS e Gestapo na Ucrânia, incluindo lista de assassinatos que incluíam jornalistas, despertaram na Rússia um acentuado discurso antifascista e mesmo a formação de forças paramilitares na Rússia que se uniam a unidades paramilitares no Leste da Ucrânia conhecidos como "Insurgentes populares" (narodnye opolchentsy), que brandiam em seus uniformes a famosa "fita da guarda", símbolo associado à luta contra o nazismo.

Assim a Ucrânia enquanto tragédia acabou se tornando na Rússia o prenúncio daquilo que a Rússia pode se tornar caso repita a loucura dos anos 90 e siga o mesmo caminho de seu vizinho. Atualmente a Rússia possui uma lei que criminaliza a propaganda do "extremismo", que abrange outras formas ideológicas que vão além do nazismo. Apesar de serem ainda uma ameaça para a Rússia, por vezes camuflada em jornais antissoviéticos como o Sputnik i Pogrom, hoje o problema o neonazismo na Rússia é um problema controlado, geralmente sua periculosidade se limita a torcidas de futebol, problema vivenciado também no Brasil.

O neonazista russo Tessak (Martsinkevich) foi preso por 5 anos em fins da década de 2000 após postar vários vídeos racistas na rede social russa VK. Após a soltura, se reinventou, passando a clamar por uma luta contra a pedofilia, cujo método era armar ciladas para pedófilos usando menores como isca. A grande ironia é que o neonazista citado, como a maioria dos neonazistas russos, é judeu.