sexta-feira, 22 de maio de 2015

Explorando o metrô de Moscou

Esse mês o metrô de Moscou completou 80 anos. Construído na época de Stalin, ele é o museu mais barato da Rússia, além de ser um efetivo e organizado meio de transporte. Vale a pena tirar umas 5 horas de sua estadia na Rússia para conhecer as principais estações com seus históricos e ricos mosaicos, monumentos e pinturas. Reza uma lenda que é "proibido tirar fotos no metrô". O "Descobridor da Rússia" desvenda esse mito:


















Vídeo da primeira entrada pela estação Planyernaya:

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Por que tantos povos tentaram conquistar a Rússia?



Hoje, no dia 8 de maio, é comemorado em todo mundo os 70 anos do fim da IIGM. Na Rússia, em razão do fuso horário ele é comemorado no dia 9 de maio. Foi neste dia que o Exército Vermelho tomou o Reichstag, pondo fim às loucuras imperialistas do III Reich. Mas fica uma pergunta, por que tantos povos declararam guerra à Rússia? O que atrai tantos invasores para esse país? Muitas pessoas me fazem essas perguntas, só que da forma errada, perguntam-me se "a Rússia é militarizada", se "os russos gostam de guerras", etc.

Em realidade, não é que os russos "gostem de guerras", é que se alguém agride você e entes queridos seus, então você tem o direito de retaliar, de se defender, e isso os russos fazem desde o século XII. Ao contrário do que aconteceu aos índios na América, dizimados por ingleses, portugueses e espanhóis, fisicamente (no primeiro caso) e culturalmente e fisicamente, no caso destes últimos, os russos não conheceram o mesmo destino dos povos da África e dos povos da América. Por isso hoje ouvimos falar da Rússia de 1000 anos, e não de "um povo que existia há milhares de anos".

O que um brasileiro sabe sobre agressão? O Brasil não conhece uma guerra em seu território há mais de 100 anos. O que um brasileiro sabe sobre agressão? Os EUA não conhecem uma guerra em seu território há mais de 200 anos. Quase todo russo tem pelo menos um avô ou mesmo avó que combateu na Segunda Guerra.

O documentário "A batalha da Rússia" é talvez o melhor documentário que existe que explica didaticamente por que tantos povos tentaram conquistar a Rússia, dos Cavaleiros Teutônicos às tropas do III Reich. O que mais impressiona é o fato de que o melhor documentário sobre a Rússia foi feito pelos... americanos! E isso anula qualquer acusação de "russofilia".

segunda-feira, 27 de abril de 2015

A bétula

A árvore conhecida como bétula (beryoza) é muito conhecida na Rússia. É possível ver grandes bosques de bétula na Rússia. No inverno elas se tornam totalmente brancas e suas folhas caem. Suas folhas eram em tempos antigos usadas contra o mau hálito. Também é um ótimo lugar.

A música "Bétula", aqui cantada pelo Coro do Exército Vermelho, pelo barítono Leonid Haritonov, fala sobre um passeio na floresta, quando os caçadores saíram, soltaram os cachorros que assustaram uma garota e ele a chama para cantar com ele no bosque, que é a maravilha de sua terra natal.

PS: Ganha um suvenir russo o lusófono que conseguir acompanhar! ;)



"Russkies siberianos"

Eu e alguns "russkies siberianos", e bem no meio a russa que queria que eu a fotografasse, em foto na Praça Vermelha
A Sibéria foi um lugar que sempre me despertou curiosidade na Rússia. Quando em 2014 surgiu pela primeira vez a possibilidade de ir à Rússia, essa viagem seria para a Sibéria, para a cidade de Yakutsk. Infelizmente isso não foi possível por que na época eu ainda não tinha passaporte para ir à Rússia. Foi uma pena, pois na Sibéria tenho um amigo que conheci na Copa e uma lindas amigas, 3 agentes da imigração do aeroporto internacional que agora estão espalhadas pela Rússia e uma médica yakútia (um dos povos de olhos puxados que fazem parte da Rússia). Em geral é muito fácil fazer amizade com russos ou russas em redes sociais. Para efeito de comparação, no Facebook conheço apenas 3 a 5 americanos, quase sempre tomo um belo bloqueio se mando mais que três mensagens. Acredito que isso acontece por que por se tratar de uma cultura materialista, voltada para o consumismo, então geralmente as pessoas dos EUA estão mais interessadas em quem possa oferecer algum tipo de vantagem econômica, é minha opinião pessoal.

A Sibéria sempre me despertou uma enorme curiosidade, dela sempre ouvi falar por causa de uma famosa raça de cães, o "husky siberiano". Ao contrário do que muitos pensam, a palavra "husky" não se refere ao russo (russkiy), mas vem da palavra sueca "hus", assim "husky" é doméstico em sueco, e esse termo foi utilizado para falar do cão doméstico. Uma raça, idêntica ao lobo, oriunda da Sibéria, ficou muito conhecida no ocidente. Na Europa Ocidental também é comum a raça de gatos da Sibéria. Também é famosa a Sibéria pela sua paisagem exuberante branca, de gelo, neve e frio.

Um dos rostos da Rússia, uma siberiana típica descrita aqui, que autorizou que eu publicasse sua foto enquanto eu escrevia este artigo
Mas apesar de não ido a Sibéria, a Sibéria veio até mim enquanto eu caminhava de noite pela Praça Vermelha, "onde as coisas acontecem". Uma jovem russa pedia para que eu tirasse suas fotos, e receoso no princípio, atendi seu pedido, até ela vir até mim e dar o seu braço para que passeássemos. Então o fizemos, na companhia de seus amigos. Era um grupo de vendedores que veio de Novossibirsk para um curso em Moscou, todos muito divertidos. Fala-se muito bem dos siberianos na Rússia. Quando eu disse que era brasileiro, foi aquela mesma novela de sempre, eles não acreditaram, acharam que eu fosse algum tipo de tártaro por causa da minha fluência e familiaridade com o idioma, até eu provar mostrando o passaporte. Às vezes tem lá suas vantagens passar por estrangeiro. Para completar, nesse dia eu estava usando um puhovik (jaqueta estilo edredom), ficando ainda mais "russo modernizado". Então eu, brasileiro, acabei sendo brevemente seu guia na Rússia, em Moscou, que eles conheciam pela primeira vez. Me convidaram para com eles patinar, uma das melhores coisas para se fazer no inverno russo. Mas pelo horário tive que recusar (e eles também), então nos dirigimos até o metrô, onde nos despedimos.

Bustos para quem gosta da Rússia (e para quem a detesta)

Da direita para a esquerda (dourados): bustos de Lenin, Dzerjinskiy, Napoleão, Pushkin, Yesyenin, Lomonosov, Tsoy (roqueiro), Putin, Stalin, Nikolay II, Vysotsky, Lyermontov e até de Ostap Bender, o famoso personagem literário russo que queria levar centenas de russos para conhecer o Brasil. (O mais caro dos bustos sai por 1200 rublos, isto é, 67 reais hoje)


Na Rússia pode-se achar toda sorte de suvenires para vender, tem para todos os gostos! Tanto de personagens protagonistas da história russa quanto antagonistas. Assim, se alguém acha que a Rússia é uma droga e com Napoleão teria sido melhor, é possível achar sem muita dificuldade em Izmaylovo ou em na saída de uma estação de metrô um busto de Napoleão. Se alguém acha que sob Nikolay II vivia-se melhor, há um busto de Nikolay II à venda. Se alguém apenas é um admirador da obra de Dostoyevsky, há bustos dele, como de Pushkin. Há também bustos de Gagarin e de líderes soviéticos como Lenin e Stalin, assim como do líder russo Putin. Mas será raro achar nomes de figuras odiosas como Hitler, Yeltsin ou Gorbatchov. Lembremos que nem Hitler conseguiu destruir a URSS, mas Gorbatchov e Yeltsin conseguiram o que nem mesmo o nazismo conseguiu. 

Em mercados negro no estilo do porão do "Fascista" do célebre filme Brat 2, é possível sim achar coisas relacionadas a Hitler e ao III Reich com negociantes. Por se tratar de mercadoria proibida, geralmente custa mais caro e por isso no ocidente também é vendido mais caro.

Às vezes eu fico pensando em quanta dor de cabeça poderia ser evitada no Brasil se passassem a vender em mercados populares do Brasil pequenos bustos de Dilma, Lula, FHC, Marcos Pontes, Itamar Franco, Marighela, Médici, Prestes e Vargas. Já pensaram o quanto isso evitaria encheção de saco nas redes sociais e nas ruas?! 

Goncharov, o autor de Oblomov

Existe uma anedota que fala de um operário que certa vez foi fazer uma queixa ao patrão, numa padaria, e então ouviu desse "que "óvi" cara?!", "que "évi" cara?!", e depois o demite por causa de sua rebeldia. É evidente que se trata de uma piada de muito mal gosto e de teor absolutamente reacionário, mas ainda assim há um tom de comédia pela forma como o autor percebe os sobrenomes russos. 

Existe uma lógica para sobrenomes russos terminarem em "óvi" ou "évi", em realidade, o mais perto do verdadeiro som é "off" ou "yeff". Trata-se de uma forma de plural russa declinada. Assim como em português temos "Ferreira", em russo temos "Kuznetsov". Assim como em português "de Paula", temos em russo "Pavlov" (tônica na primeira sílaba). Tchaykovskiy, o nome do famoso compositor, vem de "Tchayka", isto é gaivota, que por sua vez é um sobrenome de origem cossaca. Mas quem foi esse Goncharov e seu romance "Oblomov"?

Goncharov foi um dos grandes escritores da Rússia do século XIX, um século de florescimento da literatura russa, de titãs como Tolstoy, Dostoyevskiy, Gogol e outros cujos trabalhos são desconhecidos ainda em língua portuguesa, muitos tornando-se conhecidos devido ao leão da tradução russo-português Boris Schneider. Goncharov, mesmo sendo escritor, ocupou um posto polêmico no Estado russo em São Petersburgo, na época a capital do Império, o de censor. Segundo alguns autores, graças a essa posição de Goncharov, escritor, foram publicadas obras polêmicas de autores como Dostoyevskiy, Turgenyev, Nyekrassov, Pisemsky, dentre outros autores. Ou seja, ele teria sido para a literatura e o Império o que Schindler foi para os judeus e a Alemanha nazista. Ele era um homem viajado, tendo ido até a safaris na África. Mesmo sendo nobre, ele foi um crítico ácido da nobreza russa, e sua obra prima, que vi pessoalmente em sua mansão, é um exemplo disso. 

Oblomov é uma crítica à nobreza russa do século XIX, seu personagem principal, de mesmo sobrenome, passa metade do romance em cima de sua cama, ele é apresentado como um personagem inerte, apático, autodestrutivo e preguiçoso.

Um fato que chama a atenção na biografia de Goncharov é que ele fazia parte da maçonaria, organização mundialmente conhecida. Ele é motivo de orgulho para a cidade de Ulyanovsk, cujo lema é "A capital culta", como José de Alencar é para Fortaleza, por exemplo, só que com muito mais destaque. Sua casa, assim como a de Lenin, a algumas quadras de lá, é um dos principais e mais belos museus de Ulyanovsk. Tive a oportunidade de visitá-la junto a um amigo que interessa-se por castanha-do-Pará e pretende importá-la do Brasil para vendê-la na Rússia. O mais interessante dele é que embora tire fotos extremamente sério é bastante sorridente pessoalmente.

- Galeria (clique para ampliar)


 Alguns manuscritos originais de Goncharov, dentre os quais o original de Oblomov
 Vista da sala de estar da mansão de Goncharov
A coleção de caixinhas (shkatul'ki) pintadas com a centenária técnica de pintura russa conhecida como "Palyeh", em razão da aldeia onde eram pintadas. No museu é possível conhecer como é praticada essa técnica, que leva mais de 3 meses para ficar pronta e é feita apenas na Rússia, trazendo temas do folclore russo. Digamos que ela está para a Rússia como a pintura em xilografia está para o Brasil.
 Com meu amigo Anton na casa de Goncharov, autor de Oblomov

Uma das salas da mansão e a espingarda de caça de Goncharov. Diria que pelo calibre abate até um urso polar! Um ponto que chama atenção na casa é a galeria de quadros de familiares e pessoas próximas do escritor. E algumas pessoas ficam espantadas quando percebem que em meu quarto possuo o meu auto-retrato, do "fotógrafo" Sony Timer, tirada no Sul.


Vista externa da casa de Goncharov. Repare na largura das ruas dessa pequena cidade.


Minha primeira entrada no metrô de Moscou


Essa é a estação Planyernaya, última da linha roxa, subúrbio de Moscou, ao lado de um centro comercial de mesmo nome. Nesse bairro moram muitos universitários estrangeiros como os meus amigos da Bulgária e do Turcomenistão que aparecem no vídeo, estudantes de engenharia aeronáutica. No vídeo todos falamos russo. Recentemente soube de um cearense que mora lá no mesmo prédio onde eu estive. No começo fiquei um pouco embaraçado na passagem, mas depois foi tudo como um estalar de dedos. Por ser uma estação recente ela não tem muitas novidades estéticas.